Os piONeirOs

FOTOS DE FÁBIO TEIXEIRA (2011) E DE AMÉRICO SIMAS

Há oito anos, vários adeptos da mobilidadeurbana em bicicleta fizeram-se fotografar
como um testemunho e uma afirmação de vontades. As sessões de fotografia e os encontros
foram-se sucedendo no projeto Rodas de Mudança, promovido pela associação MUBi. Queriam (e querem)
mudar a forma como nos deslocamos na cidade. Naquele tempo a estrutura de ciclovias era ainda incipiente e os
incrédulos falavam na Lisboa das sete colinas.

Há oito anos eram só dois. Agora são quatro, contando com a cadela Matilda e com um filho a caminho. Ana Pereira tem 38 anos, é formada em química aplicada. Foi nomeada Bicycle Mayor of Lisbon 2019-20, no âmbito do Bicycle Mayor & Leader Programa. Bruno Santos, 38 anos, é informático. São ativistas da mobilidade sustentada ( projeto MUBi, Casa da Bicicultura, Cenas a Pedal ).

Ana Santos em 2011 ( ao lado ). Agora, com 55 anos, é formada em antropologia e professora na faculdade de motricidade humana, da Universidade de Lisboa. Depois da sua experiência na MUBi, fundou a associação Dar a Volta, que promove a mobilidade ativa e a atividade física.

Pedro Almeida tem agora 35 anos e é arquiteto. Acha que o melhor meio de promover a bicicleta é a pedalar. Gostava muito que houvesse uma ciclovia entre Lisboa e Cascais. Todos os dias, faz o percurso casa-trabalho de bicicleta. De Entrecampos, onde vive, às Torres de Lisboa, onde trabalha. Na foto ao lado tinha 27 anos.


Ana Pereira e Bruno Santos
O mito das colinas

POR LUÍS MIGUEL CARNEIRO

A ligação de Ana Pereira e Bruno Santos à bicicleta vem dos tempos de estudantes. Viviam em Oeiras e aventuravam- se a pedalar a caminho da faculdade. Ela para o Campo Grande. Ele para o Monte da Caparica. “Em Oeiras, tirando os miúdos, ninguém andava de bicicleta na rua, e em Lisboa também se viam poucos ciclistas”, recorda Ana.

Massa Crítica, o caldo germinador

Aos poucos, foram conhecendo outros ativistas empenhados na melhoria das condições para os utilizadores deste meio de locomoção. Assim, chegaram à Massa Crítica – um movimento internacional que promove a mobilidade ativa e que em Portugal foi adotado pela associação MUBi. A Massa Crítica foi um “caldo germinador” de uma grande causa social e ambiental, diz Bruno e Ana, que conheciam a realidade de outras cidades europeias.
Hoje, consideram que em Lisboa, apesar de persistir o carrocentrismo, “houve melhorias nas infraestruturas, como as ciclovias. A crise económica do início da década também levou mais pessoas à bicicleta”.

A mudança é para continuar

A introdução de ciclovias em artérias importantes, como o Eixo Central, atraiu mais gente para uma mobilidade alternativa. Deu mais visibilidade à bicicleta, dando-lhe “legitimidade aos olhos da opinião pública”.
Mas defendem que “é necessária mais coragem quando se trata de restringir o uso do automóvel”. As ruas e praças devem ser espaços de usufruto das pessoas, incluindo idosos e crianças, e não “espaços desinteressantes, depósitos ou vias de automóveis, cujo único valor é o espacinho para estacionar”.
Para quem decidir usar a bicicleta em meio urbano, ficam as dicas: “primeiro experimentar, fazer a adaptação em parques para bicicletas antes de se aventurar no meio do trânsito; depois, começar com bicicleta de uso partilhado, antes de optar por bicicleta própria”. Bruno acrescenta ainda a vantagem de percursos curtos e fáceis no início, e, à medida que a condição física melhora, passar para percursos gradualmente mais longos e difíceis. “O mito da cidade de colinas intransponíveis revela-se falso, sobretudo agora que há bicicletas elétricas."


Ana Santos
Mudar de vida

POR PAULA CEREJEIRO

Foi em 2011, depois de um congresso do International Cycling History Conference, em Paris, que Ana Santos decidiu mudar de vida. Participou à família e aos amigos que ia fazer da bicicleta o seu meio de transporte. A que comprou é topo de gama, dobra-se facilmente e é simples de transportar. E, desde então, é assim que se desloca, de bicicleta e de comboio, todos os dias, do trabalho para casa e de casa para o trabalho. E é com a mesma bicicleta que chega ao nosso encontro no Campo das Cebolas.

Pingue-pingue em vez de autoestradas

As experiências têm sido muitas. Orgulha-se de dizer que contribui para a coesão económica de Portugal, quando pedala, na companhia de uma amiga, com o seu pingue - pingue pelo interior do país. Pingue - Pingue? “Vamos passando por vários sítios, pedalamos 50 quilómetros de cada vez. E, a cada 50 quilómetros, comemos no café, almoçamos na tasca da aldeia e pernoitamos. No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, partimos para outra terreola. Vamos “pingando”, ou seja, consumindo aqui e ali, pelo país fora. A bicicleta também ajuda a integrar pequenos lugares há muito afastados pelas autoestradas.”

A importância de poder escolher

Mas Ana não é fundamentalista, não está contra os carros, e a bicicleta não define a sua identidade. Aliás, o carro também lhe dá uma certa liberdade de movimentos, como a possibilidade de ir buscar o pai à estação de Sete Rios, ou ir ao encontro da filha, quando esta chega tarde do curso de medicina.

E é com esta noção de liberdade que sublinha a importância de uma intermodalidade sustentável. Também racional e eficiente, porque os meios de transporte têm de estar garantidos, com horários articulados, bons acessos a estações de comboio e paragens de autocarro, zonas de estacionamento de bicicletas, etc. E se as pessoas optarem por andar a pé, é muito importante que os passeios ofereçam segurança.

Os espaços verdes são um grande ginásio

Ana está sentada debaixo de um toldo, numa das muitas esplanadas do Campo das Cebolas. Apesar de pouco passar das 10 horas da manhã, o sol promete aquecer. Olha à sua volta e num gesto largo, abarca o amplo espaço verde que se estende à sua frente. “Lisboa tem investido e bem no espaço público. Os jardins e os parques são cada vez mais um grande ginásio.” Dito isto, despede-se, pois ficou de ir almoçar com a filha, e parte como chegou: a pedalar.


Pedro Almeida
Ver que é possível

POR PAULA CEREJEIRO

Há dez anos, Pedro Almeida vivia em São Bento e trabalhava no Saldanha. Um dia, decidiu experimentar ir para o trabalho de bicicleta. Assim fez, e nunca mais deixou de o fazer. Um amigo falou-lhe no movimento internacional Massa Crítica, que, em Portugal, é organizado pela MUBi – Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta . Nunca mais se esqueceu da sua primeira participação, quando pedalaram da Praça Marquês de Pombal até ao Castelo de São Jorge. E compreendeu que era possível. Apesar de ter deixado de ir a estes encontros, sublinha a sua importância na promoção de meios de transporte alternativos.

É giro ter um pai ciclista

Todas as manhãs, quando sai de casa, é um momento de festa para o filho de seis anos. Acha graça ao pai ir de bicicleta. “Mas mais ninguém anda de bicicleta lá em casa”. São os transportes públicos, durante a semana, e por vezes o carro para programas familiares.

Os anos que já passou a percorrer ciclovias fizeram do Pedro um observador privilegiado das mudanças. Não tem qualquer dúvida de que não há comparação com a realidade de há 10 anos. E também não tem dúvidas de que as pessoas se sentem menos receosas e mais motivadas.

Falta uma ligação do Marquês ao Tejo

Sente muito a falta de uma ciclovia entre o Marquês de Pombal e as zonas ribeirinhas, e gostaria de ver uma Baixa ciclável. Aproveita para propor soluções de segurança bastante económicas como as green boxes ou bike boxes. Trata-se simplesmente de uma zona verde pintada antes do semáforo que permite aos ciclistas, quando o semáforo está vermelho, posicionarem-se à frente dos carros. Não só protege o ciclista dos gases do escape como torna o arranque mais seguro. “Da mesma forma, muitas vezes basta pintar no asfalto a ciclovia, sem gastar dinheiro com pavimentos específicos, que custam milhares de euros.”

Pedro gosta de desafios, de perceber se é possível. E já lhe foi possível ligar Lisboa a Sintra e Lisboa a Cascais. “Já me sinto experiente, com dez anos a pedalar em meio urbano.”

E se vivesse nos arredores de Lisboa e continuasse a trabalhar no centro da cidade? Responde sem hesitação: Desde que é permitido levar as bicicletas nos transportes públicos, qual é o problema?”


ENTREVISTA

Fábio Teixeira

FOTÓGRAFO E PERMACULTOR

Como surgiu este projeto?

O Rodas de Mudança partiu da iniciativa de três amigos — Joana, Gonçalo e César. Respondi à procura por um fotógrafo, e tornei-me o quarto elemento do projeto. A unir-nos tínhamos o desejo de contribuir para uma cidade mais ecológica e com uma escala mais humana e pessoal. Era ainda fácil reconhecer as poucas caras atrás do guiador nas ruas de Lisboa, mas havia também a sensação de estarmos no início de um movimento significativo por uma melhor mobilidade.

O que mudou na sua vida desde então?

A necessidade de um outro tipo de vida levou-me ao Alentejo e a uma ecoaldeia, onde descobri a paixão pelo trabalho agrícola e as recompensas do contacto diário com a natureza. Os últimos anos passei-os na Alemanha, onde me casei e nasceram as minhas duas filhas. Queremos agora fundar a nossa quinta de agricultura biológica e regenerativa, guiados pelas melhores práticas da permacultura e pastoreio holístico. Pretendemos fazer a nossa parte no combate às alterações climáticas, produzindo comida de qualidade superior.