Urbanismo verde

HOrtAs E prAdOs Da CIDadE

Texto Paula Cerejeiroe Sara Inácio

A agricultura esteve sempre presente nas cidades, mas os primeiros registos de regulamentação das hortas em meio urbano são de meados do século XIX, no norte da Europa. Nos períodos de guerra, as hortas urbanas aumentavam consideravelmente. O governo britânico incentivava mesmo a sua prática, como meio de suprir carências alimentares.

As hortas urbanas em Portugal tiveram um crescimento significativo na década de 60 do século XX, associadas aos êxodos populacionais do campo para a cidade. Eram hortas clandestinas sem qualquer planeamento, que cresciam espontaneamente em locais improváveis, como por exemplo junto a muros de contenção ou em baldios entre prédios. Representavam formas de estar rurais, contribuíam para a subsistência dos agregados e cumpriam um papel importante nas relações de sociabilidade.

Foi no Porto que surgiram as primeiras hortas formais, em 2004, e em 2009 nasceram as primeiras hortas comunitárias da Área Metropolitana de Lisboa, no município de Cascais. A necessidade de regulamentar esta ocupação desordenada do espaço público e orientar as populações para práticas agrícolas adequadas à sustentabilidade dos solos começou a ser pensada pela autarquia de Lisboa em 2007. A Quinta da Granja e os Jardins de Campolide foram os primeiros conjuntos de hortas urbanas integrados numa unidade homogénea com diversas valências, designadas por parques hortícolas.

Atualmente são 16, os parques hortícolas distribuídos pela cidade, que correspondem a 14,2 hectares de área agrícola. Existem igualmente pequenos núcleos de hortas isolados, sob gestão do município, ou de outras entidades, como juntas de freguesia, universidades, associações e museus. A agricultura urbana em Lisboa conta ainda com outros projetos mais abrangentes: o Parque Vinícola para a produção de vinho, a Quinta Pedagógica do Zé Pinto, que produz cereais e leguminosas, e a Quinta Pedagógica dos Olivais, que promove o contacto dos cidadãos com as tradições rurais do país.

Horta nos Jardins de Campolide
Foto Américo Simas

Horta nos Jardins de Campolide
Foto Américo Simas

HORTAS PEDAGÓGICAS

Em Lisboa existem também 70 escolas públicas e jardins-de-infância com hortas pedagógicas. Uma importante ferramenta de educação alimentar, que fomenta nos alunos a ligação à terra e aos produtos que dela provêm, cultivando o apetite para o consumo de hortofrutícolas e a melhoria dos hábitos alimentares.

Na escola básica Mestre Arnaldo Louro Almeida, no bairro do Rego, vimos como uma turma trata da horta. Enquanto uns apanhavam as ervas e as folhas secas, outros observavam atentamente a semente da abóbora que já germinava. Depois, em sala de aula, falou-se na importância de leguminosas na alimentação saudável. Aprenderam também como podem fazer tintas naturais, com beterraba, canela, e romã. A importância de respeitar a natureza é-lhes transmitida todos os dias, e quando chegam à escola fazem uma “saudação à terra”. Uma cantilena com que nos brindaram em nota de despedida: “Bom dia ao Sol/ Bom dia à Terra/ Sinto a tua força e o teu calor/ Bom dia animais e às flores também/ Bom dia para mim e para ti também!”

Na escola básica Mestre Arnaldo Louro Almeida, no bairro do Rego, uma turma trata da horta
Fotos Armindo Ribeiro

SER UM AGRICULTOR EM LISBOA

Os talhões municipais são atribuídos mediante concurso público e têm como critério a distância da residência ao parque e, em caso de empate, a data e hora de entrega de candidatura.

Mais informações no site da CML.

NOVOS PARQUES HORTÍCOLAS EM PREPARAÇÃO

Bairro da Horta Nova (Carnide); Vale da Montanha (Marvila); Quinta do Beirão (Beato); Quinta das Flores (Marvila); Vale da Ameixoeira (Sta. Clara).

BIODIVERSIDADE NAS CIDADES

Os prados garantem uma boa complementaridade entre espécies, tornando o ecossistema mais equilibrado.

Os prados biodiversos de sequeiro poderão ser uma alternativa às extensas áreas relvadas presentes em muitos espaços verdes. Este tipo de solução requer pouca manutenção e pouca rega. Os prados garantem, ainda, uma boa complementaridade entre espécies, tornando o ecossistema mais equilibrado. Como são ricos em leguminosas, não é necessário adubá-los com azoto, pois estas espécies fixam azoto atmosférico, que posteriormente disponibilizampara as gramíneas*, evitando as emissões associadas à produção destes adubos. O seu ciclo de vida completa-se num ano: crescem e florescem na primavera e morrem no verão, não antes de deixar as sementes que germinam com as primeiras chuvas de outono. São estas formas de vegetação, que não necessitam de rega e que se adaptam aos períodos de seca cada vez mais frequentes, que poderão garantir elevados padrões de qualidade nos espaços verdes das cidades.

Foi em 2009, no corredor verde Gonçalo Ribeiro Telles, que liga o parque Eduardo VII ao parque Florestal de Monsanto, que foi semeado o primeiro prado biodiverso de sequeiro de Lisboa, com cerca de 1 hectare (junto ao Palácio da Justiça). Foram utilizadas espécies de sementes mediterrânicas com diversos ciclos vegetativos, de forma a assegurar o sucesso da intervenção. E, de facto, foi uma experiência bem-sucedida, de tal forma que noutras zonas da cidade está a ser introduzido este tipo de coberto vegetal: Parque da Bela Vista, Quinta da Montanha, Vale de Chelas e Vale da Ameixoeira. Os prados biodiversos de sequeiro enquadram-se na Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas e no Plano de Ação Local da Biodiversidade.

Parque da Bela Vista
Fotos Américo Simas