Entrevista

jOAna MoUziNHo

Fotos Nuno Correia Texto Sara Inácio

Joana Mouzinho, 19 anos, mora no bairro de Alvalade, em Lisboa, mas tem o mundo no coração. Muito jovem sentiu que vivia numa bolha, com acesso a muitas oportunidades. E percebeu que com tantos privilégios tinha de devolver o que lhe foi dado. Partiu aos 16 anos à aventura e hoje é uma ativista ambiental.

LISBOA Quem é Joana Mouzinho?

JOANA MOUZINHO Uma rapariga a quem foi dado acesso a muitas oportunidades e que mais tarde percebeu que com tantos privilégios tinha uma enorme responsabilidade. Estudei sempre em escolas perto de casa, mas sempre soube que havia algo mais para além do meu bairro, da minha cidade. A minha irmã mais velha, aos 16 anos foi estudar para a Noruega e eu cresci com a ausência dela, com chamadas de Skype frequentes e com muitas visitas à minha casa, de pessoas de várias partes do mundo. Isso fomentou-me curiosidade pelo mundo e aos 16 anos fui para a Arménia estudar, com uma bolsa. Experiência fantástica.

Fiz amigos de vários países. Quando terminei o curso, o equivalente ao 12.º ano, percebi que seria melhor estar um ano fora do contexto escolar e desenvolver uma grande paixão que é a educação. Concorri a uma bolsa através de uma organização parceira da minha escola, e fui viver com uma família de uma professora, na Índia, o que me permitiu perceber como é a educação naquele contexto.


“Há uma frase que tenho no meu quarto e que é bastante inspiradora: ‘Se não estás chateado, não estás a prestar atenção’. Não me provoca raiva ou ódio, mas sim capacidade de reflexão.”


LISBOA Quando começaste a sentir que tinhas de fazer alguma coisa pelo planeta?

JOANA MOUZINHO O meu grande momento de revelação foi quando fui para o United World College, na Arménia. A minha vida até lá era uma enorme bolha. Quando entrei para esta escola passei a ser uma cidadã do mundo. Tudo que acontecia a nível global passavase no mesmo quarto que eu partilhava com outras colegas. Raparigas da Arménia, da Itália, Nepal, Síria. Sempre que havia um apagão na Síria e as pessoas ficavam privadas de acesso à eletricidade eu sabia-o de uma forma muito pessoal. Era muito triste a minha amiga não ter notícias da família durante semanas e não saber se pais, irmãos e amigos estavam vivos. Vivíamos todas o mesmo drama. Aquela escola fez com que tudo o que se passava no mundo se tornasse pessoal e é nesse momento que nos tornamos cidadãos do mundo.

LISBOA Sei que tens em mãos um projeto “Desperdício Zero”…

JOANA MOUZINHO Sim, fui a uma conferência “We are zero waste”, conheci duas raparigas filipinas que criaram um projeto, uma plataforma online que permite implementar uma cultura de desperdício zero em campos universitários. O projeto delas revelou-se um êxito. Com uma amiga brasileira, a Lakshmi, apresentámos o projeto na universidade [Faculdade de Letras, onde estuda Estudos Gerais]. Temos de apostar numa economia circular e aumentar o tempo de vida dos plásticos, do papel... O “lixo” pode ser aproveitado e gerar valor transformando-se num outro produto, em constante renovação.