Modos de habitar

vIlAS dE LiSBoA dO PaSsADO
Ao FuTUrO

Texto Por Susana Pina

Uma família rural empobrecida que migrasse para a cidade em finais do século XIX tentaria encontrar alojamento num dos muitos pátios e vilas da cidade. Entre as décadas de 1880 e 1920 a população de Lisboa mais do que duplicou.

Numa primeira fase desse crescimento (que se vinha acentuando desde a segunda metade do século XIX), os migrantes rurais aglomeravam-se, sobretudo, em Pátios, sobreocupando as zonas antigas da cidade. Eram construções espontâneas, de iniciativa particular, que nasciam em interiores de quarteirões e logradouros. Palácios e conventos desocupados – celas, salões e adros – também eram convertidos em habitações operárias.
Num Inquérito aos Pateos de Lisboa ( 1903-1905 ), a maior parte desses alojamentos foram considerados sem condições mínimas de salubridade, mesmo atendendo às modestas exigências da época. As doenças e a mortalidade não paravam de aumentar.

LISBOA ADAPTA-SE
Fugindo de condições miseráveis, milhares de pessoas continuavam a acorrer à capital para engrossar o contingente de mão-de-obra industrial. As fábricas surgiam então um pouco por toda a cidade, sobretudo nos vales de Alcântara e Chelas, pela proximidade das ligações fluviais e ferroviárias.
A cidade não estava preparada para acolher estas populações, e os poderes públicos tardavam em encontrar respostas (iam avançando com legislação que não era cumprida). É neste contexto que alguns industriais, construtores civis e sociedades filantrópicas ensaiam novos modelos habitacionais de baixo custo – as Vilas. A sua construção inicia-se na década de 1870. A primeira, por iniciativa da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses.
De tipologia variada e intenções que vão do lucro às preocupações higienistas, passando pela melhor gestão e controlo da mão-de-obra fabril, as vilas representavam uma melhoria significativa na oferta de alojamento. Construídas de raiz, obedeciam a um plano de conjunto, algumas mesmo formando pequenos bairros (por exemplo, o Bairro Estrela d'Ouro, na Graça, ou o Bairro Grandela, em Benfica). Muitas delas integravam equipamentos sociais e pequenas lojas para abastecimento local.
A distribuição em galeria externa nos pisos superiores permitia aumentar a área útil da construção. O pouco espaço interior da generalidade das habitações era "compensado" com a existência de um espaço exterior de utilização coletiva, onde decorriam muitas atividades da vida quotidiana.
A construção das vilas tem o seu período áureo em finais do seculo XIX e primeiras décadas do século XX, mas prolongou-se até à década de 1940. Acompanharam o crescimento de Lisboa, surgindo, sobretudo, em locais pouco urbanizados e de menor valor fundiário (Xabregas, Beato e Benfica, por exemplo).
Entretanto, o Estado e a autarquia começariam a agir. Nos anos 30 foi construído o Bairro do Arco do Cego, considerado o precursor da habitação social em Lisboa. Quanto aos Pátios e Vilas, essa resposta da "sociedade civil" ao problema da habitação, que caracterizou uma época e construiu um imaginário, são muitos os exemplares que chegaram até nós, alguns classificados como imóveis de interesse público. Um levantamento realizado pela autarquia na década de 1990 deu conta da existência de cerca de 1.200 Pátios e Vilas em Lisboa.
Recentemente, foram identificados 33 pátios e vilas municipais com potencial de requalificação, permitindo disponibilizar frações para jovens, com Renda Acessível. Numa primeira fase serão recuperados sete destes conjuntos (dois deles, em Campolide, já em obras), num investimento estimado de 8 milhões de euros.

COHOUSING
Também no âmbito do Programa Renda Acessível, vão ser construídos cerca de 300 alojamentos junto ao polo universitário da Ajuda. Para Lisboa, convergem muitos estudantes e professores universitários de todo o país e do mundo, mas a oferta de habitação para este segmento é ainda deficitária. As residências serão desenvolvidas segundo os princípios do cohousing, em que certas funções e atividades tradicionalmente associadas ao espaço da casa passam, total ou parcialmente, a espaços de utilização coletiva (salas de trabalho, de convívio, lavandaria, etc.). Este projeto inclui também um pequeno módulo de habitação corrente, seguindo o modelo da Renda Acessível, além de uma creche, minimercado e áreas de restauração e lazer. Neste conceito de habitat, integram-se ainda soluções de mobilidade urbana sustentável, promovendo-se as deslocações em bicicleta e a utilização dos transportes públicos. Para as novas gerações, em muitos aspetos da vida quotidiana, o acesso assume preponderância face à propriedade do bem. A habitação, mais do que "simples" imobiliário poderá vir a tornar-se um serviço (housing as a service).